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Sunday, April 05, 2009

O conto da moça que esquecia

A gente sempre esquece alguma coisa em algum momento da vida. Seja por acaso, por acidente, por distração, ou porque “é melhor assim”. E nisso de esquecer a gente invariavelmente acaba encontrando alguma coisa. Tipo a vontade de achar o que foi esquecido, ou coisas novas que você acha nessa procura.
Geralmente a gente esquece chaves, guarda chuvas, pessoas, sentimentos e caixas. Geralmente a gente esquece em balcões de rodoviária, porta chaves de academias, no meio de uma estrada confusa, num shopping lotado ou em frente ao mar. Pode-se inclusive demorar séculos para se notar que esqueceu alguma coisa. Esquecer é algo tão normal.
Mas acontece que com aquela moça era normal demais. Ela esquecia tudo em todos os lugares. Diziam os parentes e amigos que ela só não esquecia a cabeça em casa porque era colada no pescoço. Algumas vezes ela esquecia e voltava pra buscar, outras vezes ela esquecia por querer, e ai, não importava quantos sinais e avisos de “olha, você deixou isso aqui”... Ela nunca olhava pra trás.
Um dia, a algum tempo atrás aconteceu uma coisa curiosa: ela esqueceu de si mesma. Deixou-se pra trás. Ninguém sabe bem se foi de propósito, ou se foi apenas distração. Esquecida de si mesma que estava acabou se perdendo também, dela, e de algumas coisas importantes. Ela não teve tempo para se encontrar e deixou que os dias passassem na esperança que alguém a encontrasse e lhe fizesse, lhe obrigasse a encontrar-se. Nessa espera, perdida, esquecida, acabou encontrando algo novo... A moça não sabia, mas ela precisava se perder pra encontrar a vontade de se achar...





De quando eu acordo com inspiração tosca para contos toscos...

5 comments:

July said...

Erika
Acho esquecemos e somos esquecidas em alguns momentos porque somos todos cabeças de vento para algumas coisas. Uns mais, outros menos, mas somos em geral esquecidos... No entanto, a nós mulheres ficou reservado um tipo de lembrança, que, incrivelmente, parece nunca ser apagada.
Alguns momentos, normalmente momentos tolos, quase que bocós, ficam como que prensados em algum lugar muito doce, muito terno dentro de nós, de forma que esse lugar abriga as lembranças mais antigas e, surpreendentemente, inesquecíveis. Mesmo que queiramos esquecer!

Adorei o post... não achei nada de tosco até me inspirei nele!!
bjão

Marcelo said...

Nosso cérebro é o mestre em esquecer, pois nós não nos lembramos, nós esquecemos. O tempo todo escolhemos aquilo que vamos esquecer para que nosso cérebro não fique cheio de coisas inúteis, mas como saber o que é útil ou não ? A resposta eu não tenho, mas sei que uma coisa que não devemos jamais esquecer são as pessoas, pois ao nos esquecermos delas, nos despedimos de nós mesmos. Valeu por me lembrar daquelas coisas que não tem preço, boas memórias.

Izabela Hudson said...

" De quando eu acordo com inspiração tosca para contos toscos "

Além de esquecida você é muito modesta, viu...
Adorei o conto e acho que ele se aplica muito à minha pessoinha tb.. Aliás, não é difícil as pessoas se identificarem com ele, porque no fundo, todos nós nos perdemos pra nos encontrar no final.

Final,quê final?!? Não existe final...

Amanda Maron said...

Não é um conto tosco.
É um conto lindo.
E se parece tanto comigo.
:/

Lost Samurai said...

Inspirada. Muito. Não tem muito o que dizer além do que já foi dito. O conto é ótimo. É a sua cara. E eu adoro qnd vc está inspirada.
Beijos!